quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Tríplice Coroado

Até o ano de 2003, nunca um clube brasileiro havia conseguido a proeza de vencer, em uma só temporada, todos os principais torneios da “era moderna” disputados em solo nacional: o Campeonato Brasileiro, a Copa do Brasil e o Campeonato Estadual. Muitos haviam passado perto, outros sucumbiram em retas finais e a maioria não mostrava planejamento, organização e elenco suficientes para ser tão regular por um ano inteiro. Em 2003, o Cruzeiro Esporte Clube encantou a todos e venceu simplesmente tudo, com um time composto por “22 titulares”, uma organização bem feita, um técnico estrategista e no ápice de seu talento e um craque irresistível em campo: o meia Alex, que já havia tido destaque no Palmeiras do final da década de 90 e teve, em 2003, seu melhor ano na carreira ao conduzir com maestria um time com várias ferramentas, várias possibilidades, várias maneiras de jogar. Luxemburgo montava sua equipe de acordo com o adversário, usava e abusava da força do Mineirão e deixava Alex reger a orquestra azul em campo.



Time base: Gomes; Maicon (Maurinho), Cris (Luisão), Edu Dracena e Leandro; Maldonado, Augusto Recife (Felipe Melo), Wendell (Zinho / Martinez) e Alex; Aristizábal (Márcio Nobre) e Mota (Deivid). Técnico: Vanderlei Luxemburgo.



Campeonato Estadual

O primeiro título do ano da Raposa foi o Campeonato Mineiro, disputado em turno único por pontos corridos. A equipe azul venceu o torneio de forma invicta, sem dificuldades com 10 vitórias e dois empates em 12 jogos, com 35 gols marcados (melhor ataque) e sete sofridos (melhor defesa). Alex, foi o artilheiro do time no torneio com nove gols, já mostrando seu faro de artilheiro apurado, além de exercer o papel de garçom como sempre. A torcida gostou do que viu em Minas, mas os voos do time estavam apenas começando. 

                                             6ª rodada - Cruzeiro 4 x 2 Atlético Mineiro



Copa do Brasil

O Cruzeiro estreou na Copa do Brasil em fevereiro, ao vencer o Rio Branco (ES) por 4 a 2, eliminando o jogo de volta. Na sequência, o time despachou o Corinthians (RN) e o Vila Nova (GO) Nas quartas de final, em maio, era hora de encarar o Vasco, e o time de Luxemburgo ainda estava invicto na temporada, ostentando uma invencibilidade desde novembro de 2002. No primeiro jogo, em Minas, vitória por 2 a 1 do Cruzeiro, gols de Aristizábal e Alex. Na volta, empate em 1 a 1 e classificação para as semifinais. O adversário foi o difícil Goiás de Fabão, Josué, Danilo, Dimba e Araújo. No primeiro jogo, em Goiânia, vitória mineira por 3 a 2 e na volta vitória por 2 a 1, e vaga na grande final da Copa do Brasil. O adversário seria o Flamengo.

A primeira partida foi no Maracanã, com mais de 72 mil pessoas. O Cruzeiro, mesmo longe do Mineirão, acuou o Flamengo e esbanjou qualidade no meio de campo e no ataque. Depois de um primeiro tempo sem gols, o Cruzeiro conseguiu abrir o placar aos 30 minutos da segunda etapa, com Alex, sempre ele, de letra. A vitória por 1 a 0 era o melhor dos mundos para o time azul, que jogaria pelo empate em casa. Mas, nos acréscimos, Fernando Baiano empatou para o Flamengo, que ganhou uma sobrevida para a grande decisão.

                         

No Mineirão, porém, o Cruzeiro mostrou quem é que mandava. Com uma atuação de gala e um primeiro tempo alucinante, o time marcou três gols, com Deivid, aos 1´, Aristizábal, aos 16´, e Luisão, aos 28´. Na segunda etapa, com os mais de 79 mil torcedores já gritando olé, o Flamengo descontou com Fernando Baiano, mas foi tarde: Cruzeiro 3×1 Flamengo. Pela quarta vez, e de maneira invicta, o Cruzeiro era campeão da Copa do Brasil. 

                                                          Gols do segundo jogo      



Com o fim da competição, o time teria a tranquilidade para se dedicar apenas ao Brasileirão e tentar fazer história como o primeiro campeão da tríplice coroa.

Campeonato Brasileiro

Desde o começo do Brasileiro, o Cruzeiro via que era possível, sim, vencer o Campeonato Nacional pela primeira vez. O time possuía ótimos jogadores, tinha a consciência tática de Luxemburgo (que vivia talvez uma de suas melhores fases na carreira, trabalhando demais e polemizando de menos) e Alex goleador. Mesmo com as perdas de alguns jogadores no decorrer da campanha, o time se recompôs e seguiu em frente. O título passou a ser visto com outros olhos já na oitava rodada, quando os mineiros venceram em plena Vila Belmiro o grande Santos de Robinho, por 2 a 0, gols de Aristizábal e Mota. Depois da vitória, o time seguiu forte, sempre construindo vitórias tanto em casa quanto fora. O meio de campo e ataque funcionavam perfeitamente e davam conta do recado em qualquer campo, além de o esquadrão azul impor respeito nos adversários quando jogava no Mineirão.

                                                        Técnico Vanderlei Luxemburgo

O time foi extremamente eficiente e só perdeu a liderança, depois da 8ª rodada, em duas oportunidades, para o Santos, quando alguns jovens do elenco começaram a abusar nas noitadas, prejudicando o rendimento da equipe. Luxemburgo tratou de consertar as coisas, as vozes mais experientes também ajudaram e o time entrou nos eixos novamente, voltando à liderança na 29ª rodada para não largar mais. Os azuis engataram oito vitórias seguidas: 4 a 1 no Guarani, em MG; 4 a 1 no Atlético-PR, na casa do Furacão; 3 a 0 no poderoso Santos, no Mineirão, com dois gols de Aristizábal e um de Felipe Melo; 1 a 0 no Corinthians em pleno Pacaembu; 1 a 0 no Vitória, em MG; 3 a 1 no Criciúma, em SC; 2 a 0 no Flamengo, em MG e 1 a 0 no rival Atlético-MG, com gol de Mota. Depois do clássico, uma derrota inesperada em casa para o Juventude por 2 a 1, e outra derrota, para o Inter, em Porto Alegre, até assustaram um pouco a torcida, mas na sequência o time embalou de novo e venceu todos os oito jogos restantes, levantando o caneco com duas rodadas de antecipação, com uma vitória por 2 a 1 sobre o Paysandu no Mineirão abarrotado de gente (mais de 73 mil torcedores). Ao lado da torcida, o Cruzeiro conquistava pela primeira vez o Campeonato Brasileiro, repetindo, enfim, o feito do Galo em 1971. Mas ainda faltavam duas rodadas para aquela campanha que já era mágica ficar ainda melhor.

Depois de garantir a Tríplice Coroa contra o Paysandu, o Cruzeiro tratou de lapidar ainda mais a sua imponente coroa. O time recebeu o Fluminense e goleou por 5 a 2, com gols de Mota, Alex (2), Márcio Nobre e Zinho. No último jogo, contra o lanterna e já rebaixado Bahia, o Cruzeiro não teve dó e aplicou 7 a 0 nos baianos em plena Fonte Nova, com cinco gols de Alex, um de Felipe Melo e outro de Mota. 

Cruzeiro 2 x 1 Paysandu - Jogo do título


O Cruzeiro, de maneira brilhante e inesquecível, fechava com chave de ouro uma campanha marcante: 100 pontos, 31 vitórias, sete empates, oito derrotas, em 46 rodadas. 102 gols marcados e 47 gols sofridos, registrando 81,16% de aproveitamento em casa e 63,77% fora dela (os melhores do torneio), além de 72,5% de aproveitamento geral. A campanha fez do Cruzeiro o time a registrar o maior número de pontos numa só edição de Brasileiro (100), o maior número de vitórias (31), e, claro, o primeiro a faturar a Tríplice Coroa no futebol brasileiro. Alex, estrela maior do time, se tornou o maior artilheiro do clube em uma só edição de Brasileiro com 23 gols, um a mais que Alex Alves, em 1999. A história estava escrita, com caneta de tinta azul. E ouro.

9 comentários: